segunda-feira, 19 de março de 2012

A Vontade de Deus


Este post é dedicado à Vi, com saudade de irmã.




O tempo passa e fica muito divertido perceber as mudanças que se processam em nossa vida. Desde criança eu trazia em minha alma a sede pelos aspectos espirituais do ser humano. Olhava para o céu e ficava horas imaginando que deveria haver um ser muito grande e poderoso comandando toda a criação. Sim, comandando, pois minha inteligência não permitia imaginar nada existindo por si só e cumprindo uma função na natureza simplesmente por existir.

Eu sentia sede de pertencer a algo maior e mais significativo do que existir, pura e simplesmente. Devia haver um porquê para cada coisa existente no mundo, eu entre elas. E a busca pelo meu porquê me consumia. Eu lia a Bíblia quase todos os dias, fazia orações, ia à igreja, participava de retiros e de suas atividades intensamente na ânsia de me aproximar das respostas que eu buscava: por que existo? Qual a minha missão na vida?

Já na fase adulta, conheci a Renovação Carismática Católica e nela encontrei uma expressão de fé alinhada com as que meu espírito desejava demonstrar. Participei de uma Experiência de Oração, que é um retiro normalmente realizado num durante um final de semana, onde os participantes ficam internos no seminário. O objetivo é fazer com que cada um tenha uma experiência particular com Deus por meio da oração pessoal. Foi lá que ouvi falar da "vontade de Deus" e descobri que Deus me amava tanto que havia me criado com um propósito especial. Admito que me senti a tal! Só restava agora descobrir qual era o tal propósito, o que se revelou uma tarefa nada fácil.

Ao final da Experiência de Oração, minha sede espiritual, ao contrário do esperado, havia aumentado. Sem perceber, engoli a pomba do Espírito Santo com pena e tudo. Essa expressão significa que vivenciei a experiência de oração tão intensamente que me achava deslumbrada com a possibilidade do Reino do Céu. Daí em diante passei a perseguir a "vontade de Deus" com afinco ainda maior do que nunca. Eu trabalhava e estudava com um ser humano normal, mas no background de meus pensamentos havia uma lupa encarregada de investigar, de descobrir qual era a "vontade de Deus" para cada passo que eu tivesse que dar. Passei a enxergar Deus e suas manifestações em absolutamente tudo: nas pessoas que conviviam comigo, nas ações da natureza, nas contrariedades, nos acertos, em TUDO mesmo. E minhas conclusões pessoais acerca do eu achava que era a "a vontade de Deus" para minha vida guiaram meus passos e minhas escolhas, que variavam desde de comprar um par de sapatos passando pelo namorado e o apartamento.

O tempo foi passando e esse estilo de tomada de decisões baseado na "vontade de Deus", muito embora eu tivesse um grande desejo de permanecer  dentro dela para evitar todo tipo de fracasso, me trouxe situações indesejáveis. Era como se, com o passar do tempo, a linguagem de Deus para comigo fosse se transformando num idioma completamente desconhecido. E num belo dia eu não conseguia mais me comunicar com Ele para descobrir o que Ele queria que eu fizesse.

Para ser coerente, tenho que admitir que minha busca incessante de tentar descobrir e realizar a "vontade de Deus" em minha vida a todo momento pode ser chamada de presunção, e daquelas bem grandes. Quem sou eu para me revestir da convicção de conhecer o divino de forma tão arrogante? 

Se Deus tem uma "vontade" ou um "propósito" para minha vida, que seja muito personalizada, ainda não descobri. Estou chegando aos 40 anos, e ainda não encontrei as respostas que eu gostaria para os meus questionamentos. Com os erros e acertos cometidos à luz de minha fé renovada, com muito trabalho, boa vontade, pouco estudo e aprofundamento superficial,  aprendi que o crescimento e o amadurecimento exigem novas habilidades de cada um de nós. Os bebês recebem leite, já os adultos, comida sólida.

Inevitavelmente eu cresci e por opção, amadureci. Percebi que Deus nos deu uma série de dons, a inteligência entre eles, para nos guiar e nos auxiliar em nossas escolhas de vida. E Deus, que tanto nos ama, abençoa nossas escolhas; nem todas da forma como gostaríamos. 

Hoje eu tenho meus sonhos, me questiono se são íntegros, se sua realização não vai causar prejuízos a ninguém, e peço a benção de Deus, sem presumir conhecer TUDO o que Ele planeja para minha vida, caso contrário, onde estaria meu livre arbítrio?

Muitas vezes estive às voltas com o dilema vontade de Deus X livre arbítrio. Uma coisa não combina com a outra. Se Deus tem uma vontade pra minha vida, penso que ele me predestinou a viver algo, e nascer com o destino definido não nos dá margem para fazer escolhas, para exercer o livre arbítrio. Se não cai um único fio de cabelo de minha cabeça sem que Deus permita, isso quer dizer que se eu me decidir raspá-los, ou a cortá-los bem curtinhos, ou arrancá-los num acesso de fúria, tudo isso reflete a vontade de Deus para os meus cabelos? Será que Deus tem um propósito até para os meus cabelos? Todas as minhas ações refletem a vontade de Deus?

Finalmente em 2009 encontrei o livro Cartas Entre Amigos. Trata-se de uma sequência de cartas trocadas entre dois amigos ilustres: Pe. Fábio de Melo e Gabriel Chalita. Numa das cartas ao amigo sacerdote, Gabriel diz o seguinte:

"Um lápis nas mãos do Senhor, padre Fábio. Você gosta dessa definição? Não creio que Madre Teresa quis usá-la ao pé da letra, mas em um exercício de amor feito serviço. Em sua carta, amigo, você disse das incorreções de incutir em Deus a responsabilidade pelas escolhas dos homens. Há quem faça isso se valendo do preceito de que não cai uma folha da árvore sem que Deus queira. Parece-me que o correto é sem que Deus saiba, não sem que Deus queira. Ou estou errado? A onisciência divina faz com que Ele tenha consciência de tudo o que se passa nas escolhas humanas, mas Ele respeita essas escolhas, senão não seríamos humanos. E máquinas é o que não somos!
O destino, como uma linha desenhada por Deus sem que tivéssemos possibilidades diferentes das planejadas, seria um reducionismo da inteligência humana. Voltando a Sartre, estamos condenados à liberdade. Liberdade e destino não combinam. Escolhemos, portanto, a nossa história e somos os responsáveis pelos erros e acertos. Somos um lápis nas mãos do Senhor quando decidimos fazer as coisas como se Ele as fizesse."
(do livro Cartas Entre Amigos, escrito por Padre Fábio de Melo e Gabriel Chalita. São Paulo: Ediouro, 2009 - páginas 44 e 45)

O mensagem que saciou a sede de meu coração, também lançou uma luz sobre minhas escolhas pretéritas - foram baseadas em premissas equivocadas. Se traduziram em boas escolhas porque estavam alicerçadas no desejo de que eu me tornasse um ser humano melhor e capaz de viver uma vida moralmente correta, de acordo com os princípios cristãos.

Tudo isso posto, volto à experiência do câncer.
Inúmeras vezes ouvi pessoas queridíssimas, e outras nem tanto, me dizerem algo equivalente a:

- FOI VONTADE DE DEUS! VOCÊ TINHA QUE PASSAR POR ISSO!

Para não baixar o nível, não escreverei as palavras que posso expressar por PQP (cuja tradução também pode ser PONTE QUE PARTIU)! Mas elas são as únicas que traduzem meu sentimento quando ouvia esse tipo de sentença. Prefiro crer que as pessoas que diziam isso tinham o desejo de me consolar, afinal, viver algo muito ruim talvez seja mais fácil se o indivíduo acreditar que Deus, que o ama, quis que assim fosse feito. Mas daí voltamos para um Deus que nos criou com um destino determinado, como se cada acontecimento fosse uma sentença prevista.

Fico imaginando Deus durante a obra da criação:
- Bom, a Fabiana vai ter um filho lindo e saudável, mas logo depois eu vou mandar um câncer pra ela! O Thiago vai ter lindos olhos verdes mas vai ser paraplégico por toda a vida! Já o Heitor vai perder um dos braços aos 11 anos num acidente de moto!... e assim por diante!
Ora, a catequese da Igreja Católica sempre usou a metáfora PAI na tentativa de explicar Deus às crianças. E aprendi que Ele é o Pai mais amoroso do mundo!

Eu sou mãe. Quando vejo meu filho de 4 anos rindo, sou invadida pelo desejo de que aquele riso o acompanhe por toda a vida. Quando o vejo dormindo e posso abraçá-lo, sinto vontade de criar uma redoma ao redor dele que barre todo tipo de sofrimento que ele possa ter durante sua vida. Quando suportei os efeitos da quimioterapia em meu corpo, passei tão mal e senti tantas dores, que olhando pro pequeno Alexandre eu agradecia a Deus pela doença ter acontecido comigo e não com ele. E notem, eu sou apenas um ser humano cheio de defeitos que erra até quando pretende acertar. Nem assim desejo sofrimento algum ao meu filho. Tudo isso torna IMPOSSÍVEL, para mim, crer que o Deus no qual deposito minha fé, tenha tido esse tipo de vontade para minha vida.

Quando ouvia alguém falar da vontade de Deus, eu sorria e continha todos os impulsos de responder:
- Caramba, eu nem quero conhecer esse teu deus, porque ele é cruel pra caramba! Ainda bem que o Meu não faz isso com ninguém! 

Eu sou um ser humano e, portanto, estou sujeita a todas as mazelas da humanidade: doença, sofrimento, dores, desilusões, sonhos não realizados, dificuldades financeiras, problemas familiares e tudo o mais. Se Jesus não foi poupado da dor física, da traição e da morte, porque eu o seria? 
E aí reside a grande diferença entre crer e não crer em Deus: durante todo o tratamento que envolveu cirurgia, pós-operatório, recuperação, sessões de quimioterapia, perda de cabelos, das sobrancelhas, da identidade visual, da auto-estima, crise conjugal, eu me sentia acompanhada, amparada, e tinha a certeza de que tudo daria certo. Bastava que eu marcasse meus três pontos! Quem não crê em Deus passa por tudo isso sozinho, e eu não quero nem pensar em como seria minha experiência sem Ele.

Olhando profundamente para mim mesma chego à conclusão de que não conseguiria viver sem Deus, tanto que, se Ele não existisse, como eu creio que Ele existe, eu ousaria inventá-Lo.



terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Michael Jordan e Eu


"Novamente a oração é a chave de tudo. Isto me fez lembrar de uma história contada por um principiante que jogava para o Chicago Bulls. Certa noite, o incomparável Michael Jordan fez 65 pontos e o novato recebeu ordem de entrar nos dois últimos minutos do jogo. Quando o jovem foi interrogado mais tarde por um repórter, ele disse: "Foi mesmo uma grande noite. Michael Jordan e eu fizemos 68 pontos". É assim que me sinto sobre ser pai e sobre a oração. Fazemos todo o possível para ganhar alguns pontos, mas a maior contribuição é feita pelo criador dos filhos."
O relato acima está no livro Educando Meninos, escrito pelo Dr. James Dobson e a história do jogo é citada como tendo sido relatada pelo Vice-Presidente Albert Gore Jr. no Desjejum presidencial, em 1995.
A maternidade sem gestação visível me trouxe muitas inseguranças sobre como lidar com meu filhote. Sem familiares ao meu lado, e me esquecendo da existência dos amigos, sempre presentes, lancei mão da atividade que mais gosto de realizar na vida: a leitura. Li muitos livros sobre educação de filhos. De todos eles, o trecho acima foi aquele que colou em minha mente e em meu coração, aliviando um pouco a tensão natural gerada pela responsabilidade de educar uma criança. Dividir o fardo com Alguém cujo poder é infinito foi extremamente tranquilizante.
Receber uma notícia como "Você está com câncer" é muito ruim, e depois dela  pensei que nada de pior poderia ocorrer comigo. Eu não poderia estar mais enganada!
A busca por opiniões médicas era exaustiva. Muitas clínicas me ofereciam uma lista de espera de 3 a 6 meses por uma consulta oncológica. Ora, que paciente de câncer pode ficar esperando um médico por 6 meses? O despreparo das atendentes de clínicas chiques e renomadas se tornou evidente. Num mundo perfeito elas iriam me oferecer um encaixe, ou uma consulta com outro médico da clínica. Demonstrariam alguma empatia por alguém que gritava por socorro do fundo de um abismo. Só que mundo perfeito não existe, e as secretárias das clínicas oncológicas não demonstraram a menor compreensão da gravidade da doença com que trabalhavam todos os dias.
Enfrentei muitas filas de encaixe, conversei com alguns mastologistas e oncologistas para conhecer suas opiniões sobre as linhas de tratamento que poderiam ser adotadas em meu caso. Não faço o gênero desesperado, daqueles que afundam num buraco negro quando recebem a pior notícia de suas vidas. Só que eu não parava de receber más notícias, e estava começando a me desesperar.
Quase 15 anos haviam transcorrido desde o tratamento de minha mãe e o meu, a medicina evoluído, o século havia mudado e, pasmem, os médicos continuavam encarando a reconstrução mamária como um detalhe estético que não faz parte do tratamento de um câncer de mama! Dá pra acreditar nisso?
Todas as noites eu chegava em casa e meu Marido perguntava:
- E daí, Esposa, como foi hoje?
- Ainda não foi hoje. Não encontrei a equipe que vai me tratar.
Em oração eu pedia a Deus que me mostrasse o caminho a seguir! Eu continuaria minha busca empenhando todos os dons naturais com os quais fui abençoada - inteligência, intuição e a capacidade de controle emocional. Eu esgotaria todos os recursos disponíveis antes de me conformar com todas as notícias péssimas que eu vinha recebendo diariamente. Essa foi a maneira que encontrei para tentar marcar meus 3 pontos nesse jogo.
Uma grande amiga recém saída de um tratamento de câncer de mama conseguiu que sua mastologista aceitasse me atender às 19h00. Dra. J me impressionou pela beleza e juventude. Acho que ela é mais nova do que eu. De posse de todos os meus exames ela percebeu que eu buscava alternativas. E demonstrou empatia por mim e simpatia pela reconstrução mamária imediata. Evidentemente uma mulher com boa autoestima enfrenta melhor um tratamento quimioterápico e tem mais chances de sucesso! Claro como a luz de um dia ensolarado. 
Voltei para casa bem tarde naquela noite, cansada, com fome, e chorando de alívio por minha busca ter, enfim, chegado ao fim.
Retornei no dia seguinte para falar com o Dr. C, o cirurgião plástico e discutir minhas possibilidades de reconstrução. Participei da escolha do método e pedi que minha glândula mamária fosse completamente retirada. Havia só um pedacinho doente, mas minha intuição me dizia que era melhor me livrar dela toda. E essa decisão se mostrou a mais acertada, como relatarei oportunamente.
Com a equipe escolhida, começava outra maratona: os preparativos pré-cirúrgicos que envolvem plano de saúde, exames, pré-anestésicos, auto-doação de sangue, fotos, passando inclusive pela compra de meias, cintas, sutiãs e até os pijamas adequados, pra não falar nos preparativos de uma rede de apoio em casa, afinal, eu estaria saindo de cena de minhas atividades de esposa, mãe e dona de casa pra me tornar completamente dependente de minha família. Quando digo completamente, quero dizer exatamente DEPENDÊNCIA COMPLETA. Até para me levantar da cama e ir ao banheiro eu precisava de ajuda.
Um dia, finalmente, tudo estava encaminhado. Me sentei em minha cama, relaxei e comecei a pensar em tudo o que estava acontecendo. Analisando todos os fatores envolvidos no tratamento, pela primeira vez comecei a pensar que a probabilidade de tudo dar certo era infinitamente menor do que a de tudo dar errado. Por mais que eu me esforçasse havia muito pouco que eu pudesse fazer pelo sucesso de minha cirurgia. Havia médicos, auxiliares, centro cirúrgico, anestesista e tanta gente e recursos envolvidos... e eu não podia tomar conta de nada, só de mim mesma. 
Bateu um desespero muito grande que começou com uma bola entalada na garganta, a respiração ficou curtinha, o medo foi se agigantando e me envolvendo numa atmosfera opressiva. Comecei a chorar e o choro foi crescendo, convulsionando, enquanto eu me sentia cada vez menor, como se eu estivesse encolhendo ao passo que os monstros que me aterrorizavam se tornavam cada vez maiores. Seriam eles que estavam crescendo, ou eu que estava diminuindo? Eu não sabia. 
Também não sei por quanto tempo fiquei nesse estado. Sei apenas que chorei muito, até me cansar e as lágrimas secarem, até não encontrar mais em mim nenhuma fonte de energia para reagir. 
No auge do meu cansaço, me sentindo completamente abandonada, um pequeno milagre aconteceu: me lembrei do Michael Jordan.
Comecei a sorrir, me levantei com a cara toda inchada, fui ao banheiro lavar o rosto, me olhei no espelho e disse a mim mesma: 
- Fabiana, você se esqueceu em que time você joga! Sua única obrigação é marcar 3 pontos!
E eu estava determinada a marcar os meus; e tinha bem mais de 2 minutos restantes em meu jogo. 
Voltei a me sentir em paz novamente, mesmo sabendo que minha jornada estava apenas no início e que não seria fácil concluí-la.
Quando meu Marido me perguntava:
- E agora, Esposa, o que vamos fazer?
Eu respondia sorrindo e em paz:
- Nada com que se preocupar, Marido. Só preciso marcar 3 pontos, e você sabe que estou me esforçando muito para isso. O resto não é comigo, afinal, eu jogo no time do Michael Jordan!!

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

De Médico e Louco...



Recebi a notícia de minha doença numa sexta-feira.
O dia acabou. O final de semana chegou. 
Muito embora eu estivesse assimilando quantas coisas eu teria que fazer nos próximos dias, que seriam de férias, teoricamente falando, sábado e domingo havia muito pouco ou quase nada a fazer.
Só em pensar no que o futuro me reservava eu sentia um tremendo cansaço.
Havia, também, outros dois sentimentos distintos e conflitantes habitando o mesmo espaço em minha alma: o primeiro era uma serenidade trazida pelo conhecimento da notícia. Tal como diz o Evangelho de São João 8, 32: "E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". Sim, a verdade me libertou da dúvida, da incerteza, da falta de perspectiva quanto ao futuro. Só que trouxe junto o medo do desconhecido.
Minha vida que era toda certinha, planejada e me conferia a segurança necessária para viver havia escapado de meu controle. Quanto mais eu pensava nisso tudo, mais cansaço e sono eu sentia. Providencial e propositalmente me convenci de que não havia nada que eu pudesse fazer num final de semana e orei pedindo a Deus um pouco de descanso. E dormi bem, como uma criança depois de muito brincar, um sono limpo, sem sonhos.
Intimamente eu guardava em mim uma pequena esperança de que talvez eu acordasse no dia seguinte e veria que eu havia sonhado com o câncer; teria sido apenas um sonho e eu poderia retomar minha vida e minhas férias  normalmente.
Meus sonhos secretos não se realizaram.
Me levantei segunda-feira pela manhã, me cerquei de agenda, lista telefônica, internet, papel e caneta e fiz inúmeras ligações para conhecidos a fim de saber referências médicas.
Tentei inutilmente agendar consultas com oncologistas renomados. As atendentes me ofereciam uma lista de espera de 3 meses, no mínimo! Eu mantinha a tranquilidade, quando o meu desejo era de berrar no telefone:
- Será que você não entende? Enquanto eu não iniciar meu tratamento eu estou morrendo um pouquinho por dia! Eu não quero agendar consulta pra tratamento de beleza! Eu preciso de um encaixe, com URGÊNCIA!
Mas elas não entendiam...
O único sucesso que obtive foi o de perceber que as pessoas que representam médicos e clínicas de renome são pessoas completamente alheias à essência de suas funções que não captaram a gravidade do assunto que é tratado ao seu lado, nos consultórios.
Apelei para as amigas e pedi que elas entrassem em contato com médicos conhecidos. E pude perceber a força da rede de relacionamentos. Funcionou!
Lá fui eu pra minha primeira consulta com um oncologista. 
Preciso esclarecer que compareci a quase todas as minhas consultas sozinha. Meu marido estava trabalhando, meu filho, de 2 aninhos à época, estava na escolinha o dia todo, não temos parentes em Curitiba e minhas amigas estavam trabalhando também. Marido sempre se oferecia pra ir, mas eu achava que se ele tivesse que faltar ao trabalho, seria melhor quando eu fosse operada. Por ora, eu faria tudo sozinha.
A clínica era chique, com decoração moderna.
Fui conduzida um longo corredor com muitas portas e cadeiras de espera entre  elas. Localizei o nome do médico, que chamarei gentilmente de Dr.Maluco e me sentei ao lado da porta. Olhando pra cima vi que no verso da placa onde constava o nome do Dr. Maluco havia um adesivo bastante sugestivo do que eu iria encontrar: "Cuidado! Cão bravo!", com direito a desenho ilustrativo.
Uma auxiliar me conduziu para dentro do consultório e me arrumou na maca para o Doutor me examinar. 
O consultório era enorme, com iluminação indireta nas paredes, um balcão do tipo escrivaninha ocupando duas paredes inteiras, repletas de livros e papéis numa desordem proposital. Achei tudo impressionante, até ver médico.
Dr. Maluco era encorpado, com pele queimada do sol, tinha os cabelos ficando grisalhos, desgrenhados à moda Einstein, e usava um jaleco azul que ia quase até seus pés. Ele superava o consultório no quesito "impressão".
Ele me perguntou o que eu tinha, me apalpou e me mandou me vestir.
Sentou-se à escrivaninha, me apontou uma cadeira pra sentar, pegou um papel para fazer anotações e começou o interrogatório.
A cada resposta que eu dava ele me observava de rabo de olho, de cima em baixo fazendo comentários nada animadores.
Resumindo: em sua opinião, com meu histórico familiar - mãe que teve câncer de mama antes dos 50 anos, e minha idade - 36 anos, ele me considerava paciente de alto risco. Sua conduta seria orientar meu mastologista a me submeter à mastectomia bilateral radical!!!!!!!!!!!!!!!!!
Sabem o que isso significa?
Que minhas mamas seriam extirpadas completamente e ao mesmo tempo. No lugar delas, o médico teria que enxertar pele de outra parte do meu corpo pra criar um certo volume que imitaria duas mamas!
Eu teria duas mamas falsas! Remendadas! Costuradas! Ficaria parecendo com uma colcha de retalhos! Uma versão feminina do Franskenstein de Mary Shelley!
Ouvi tudo, fiz muitas perguntas, e disse a ele:
- Estou começando a entender o motivo daquele adesivo no verso de sua placa.
Pela primeira vez ele riu e me disse:
- Ah, você viu é?
Saí do consultório com inúmeros pedidos de exames: uns 50 somente de sangue, ultrassonografias (que em Curitiba se chamam ecografias), tomografias, ressonâncias magnéticas, cintilografia óssea.
Já no carro eu tentava agendar os exames pelo celular, quase vendendo minha alma pra conseguir um encaixe já nos próximos dias.
Quando eu terminava as ações, porque elas sempre acabam, vinha o silêncio. E ele carregava consigo todos os meus temores. Eu dirigia de volta pra casa chorando e pensando:
- NÃO! ISSO NÃO PODE ESTAR ACONTECENDO COMIGO! POR FAVOR, MEU DEUS, ME DIGA QUE ISSO NÃO É VERDADE!


terça-feira, 18 de outubro de 2011

Tudo o que você queria perguntar à Mulher Careca mas tava meio sem jeito

TUDO O QUE VOCÊ QUERIA PERGUNTAR À MULHER CARECA MAS TAVA MEIO SEM JEITO
Por Rô Fidelis






Mulher careca, num dia de Sol, lenço, boné, peruca ou só um filtrozinho solar básico?
R: Filtro solar sempre! Mas eu não dispenso um boné moderno que confere um certo charme ao visual.

O que mudou da mulher cabeluda (a.C.) pra mulher careca (d.C.)?
p.s.: a.C - antes do câncer
       d.C - depois do câncer
R: A principal mudança foi que (a.C.) eu pensava nos outros em primeiro lugar e, se sobrasse tempo ou possibilidades de me agradar no final, eu estava no lucro.
No outro extremo (d.C) agora penso primeiro em mim, sem culpa. 

Os pelinhos fazem falta ou só servem pra fazer a alegria da depiladora?
R: Os únicos pelinhos que fazem falta, e fazem uma FALTA DANADA são os CÍLIOS e SOBRANCELHAS. Nem me senti feia careca, mas sem os tais cílios e sombrancelhas...

Uma mega banana split ou um capuccino cremosíssimo?
R: Capuccino cremosíssimo, sem sombra de dúvida, no inverno e no verão!

Você percebeu alguma mudança na reação das pessoas desconhecidas (na rua) em relação à vc careca?
R: Sim. Passei a ser notada. Me destacava. Notei muitas caras de espanto do tipo "O que essa louca está fazendo sem os cabelos?" e também recebi elogios. O visual exótico chamava a atenção.

Praia, neve ou campo?
R: Praia.

O que é, digamos, desagradável na reação de alguém quando você conta que teve câncer? 
R: Aquela dramatização que certas pessoas fazem de um sofrimento maior do que o meu, que tive câncer, simplesmente por saberem que eu tive a doença.
E a banalização do sofrimento que o paciente de câncer viveu - e que certamente foi a pior da vida dele - com a citação de uma porção de exemplos de pessoas que também tiveram o problema e "tiraram de letra", como se isto fosse a coisa mais fácil do mundo.

É chato ter que contar como está o tratamento e seria melhor se não perguntassem ou falar do assunto é tranquilo?
R: Nem um pouco chato. Falo sobre a doença e o tratamento com naturalidade. Não tenho nenhum problema com isso. Só que é preciso dosar o que se vai falar, porque muitas pessoas perguntam apenas por educação.

Macacão de listras coloridas ou blusinha básica branca?
R: Blusinha branca básica. Confesso que é o que tem em metade do meu guarda-roupas.

O que é chato ouvir de alguém sobre a doença?
R: Xiiiiii... essa lista é meio extensa, mas vou focar o que mais me incomodava e dizer porquê.
1. Ouvir que a doença foi vontade de Deus. PONTE QUE PARTIU! Eu sou mãe, e super imperfeita, erro muito; mesmo assim, com toda a minha humanidade, sou um ser humano (imperfeito, lembrem-se!) incapaz de projetar qualquer tipo de sofrimento para a vida do meu filho. O Deus em Quem eu creio é AMOR em toda a sua essência, e jamais mandaria qualquer tipo de sofrimento a nenhum de seus filhos. A doença faz parte de minha condição humana, e enquanto eu estiver na condição humana estou sujeita a todas as suas mazelas. Pra que ninguém me interprete mal, quero salientar que, crer que Deus estava ao meu lado, me ajudou a não me sentir sozinha durante o período em que me senti atrassando um longo e escuro túnel.
2. Ouvir que foi você quem produziu a doença em seu corpo, seja com seus pensamentos ou suas atitudes. Não estou dizendo que eu não tenha responsabilidade sobre isso, mas quando eu me sentia com o pé na ante-sala do purgatório, esse tipo de comentário só me trazia sentimentos de culpa e questionamentos que me deixavam muito mal. E tristeza detona o sistema imunológico de qualquer ser humano. A quimio também derruba, e ela não precisa de uma mãozinha extra.
3. A tirania do pensamento positivo. Quando eu estava nos dias bons - e dias bons não querem dizer dias ótimos, com tudo normal; querem apenas dizer que eu não estava tão ruim - eu até conseguia pensar positivo, ter fé e esperança de que tudo iria melhorar, de que o tratamento seria apenas uma fase difícil de minha vida. Mas quando eu fazia quimio e ficava vários dias seguidos me sentindo muito mal, sinceramente, eu não conseguia pensar positivo. A única coisa que eu conseguia era me retirar, ficar quietinha, tentando não atrapalhar ainda mais a vida de minha família, repetindo pra mim mesma: "Vai passar". Só isso. Então eu me culpava por não estar conseguindo ser "positiva". Ora, gente, só o fato de aguentar a barra e não reclamar já exigia um esforço homérico. Nessas horas eu não conseguia ser Poliana. Só que eu também não queria me sentir mal por causa disso. Eu já estava fazendo o meu melhor.

O que é legal ouvir de alguém sobre a doença?
R: Os exemplos de pessoas que conseguiram vencer a doença e que fazem a diferença na vida de outras pessoas, que a medicina descobriu um novo medicamento que aumenta as chances de cura, que algumas terapias alternativas ajudam a melhorar a qualidade de vida durante o tratamento, que há livros gostosos de ler que tratam do universo da doença de maneira leve até mesmo divertida, que alguém conhecido ou desconhecido gostaria de conversar contigo pra partilhar uma experiência e te dar uma força, ou pra recebers uma força, entre tantas outras coisas legais.

Manjericão, pimenta ou alho?
R: Os três! hummmmmm... que delícia!

Qual é a atitude ideal da família, dos amigos e dos desconhecidos em relação a alguém com câncer?
R: Dar apoio. Só que esse apoio é diferente de uma pessoa pra outra. No meu caso, receber apoio, significava ter alguém pra me ouvir, aceitando meus sentimentos sem me criticar e que ao final essa pessoa pudesse simplesmente me dizer que estava ao meu lado torcendo por mim, "tocando os tambores" pra me guiar enquanto eu atravessava meu túnel escuro.

Uma lembrança que aquece o seu coração.
R: Uma só é difícil, pois tenho várias. Foram tantas as demonstrações de carinho e apoio que recebi, graças a Deus e aos amigos queridos que me cercam. 
Como é pra mencionar apenas uma, vou colar logo abaixo o e-mail que recebi de uma grande amiga, em 04/12/2009, com o título "Yesterday", cuja lembrança permanece em minha memória:

"Minha querida amiga,
Ontem passamos o dia juntas e foi ótimo. Fazia tempo que não tínhamos tanto tempo livre só pra nós não é mesmo? Então, sabe que em alguns momentos eu tive vontade de te dizer algumas coisas mas não quis “estragar” o clima com assuntos melodramáticos, provavelmente tudo o que vc não precisa agora é mais gente fazendo drama perto de vc. Bom, como acho que falar olhando diretamente pra vc, sem chorar, vai ser impossível e não quero que vc protagonize comigo nenhuma cena de novela mexicana, aliás, se for pra encenar qualquer coisa, que seja um episódio da Nigela, né?? resolvi escrever, porque acho que é importante que vc saiba o que quero te dizer. É o seguinte, essa batalha que vc tem pela frente, infelizmente será uma luta só sua, mas como disse a raposa ao pequeno príncipe: “vc é responsável por aquilo que cativas”, vc tem cativado ao longo da sua vida, fortes e verdadeiras amizades, então tenha certeza de que apesar de a luta ser só sua, vc não ficará sozinha no campo de batalha não, estaremos eu e várias outras pessoas que te conhecem e te amam tanto quanto eu te amo ao seu lado, te apoiando, te levando amizade, companhia e um capuccino com creme. Não esmoreça minha amiga! vc é uma fortaleza e vai precisar dessa enorme força interior que vc tem e eu tanto admiro. Prometo que, seguindo seu exemplo, vou também tentar me fortalecer para ajudá-la a manter o bom astral.
Te amo muito. Vc é responsável por mim.
Beijo.
Rô"

A mulher careca, de alguma forma, foi melhorada pelo câncer? tipo, adquiriu algum bom hábito, mudou seu ponto de vista sobre algum assunto...
R: Sim, A Mulher Careca saiu do sedentarismo que era seu pior e mais arraigado hábito. Você pode acreditar que há um ano atrás ela não conseguia correr uma quadra e agora corre 4 ou 5 quilômetros, habitualmente?
Ela também passou a dar preferência aos alimentos orgânicos e fez ajustes sensíveis em seus hábitos alimentares. Particularmente, acho que ela está se amando e se cuidando mais atualmente do que antes da doença.

Pra finalizar: O que a mulher careca espera/planeja para o futuro, além de reaver suas belas madeixas?
R:
1. Nunca mais ter câncer!
2. Fazer alguma diferença na vida de pessoas que enfrentam a doença ou que convivem com pacientes de câncer. Só não consegui descobrir como fazer isso, AINDA.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Primeiro erro

Estive ausente das publicações por longo período.
Muito stress no trabalho, alguns probleminhas de saúde, mas nada grave um câncer (ainda bem!)
Em meu último post contei como foi que recebi a notícia de que estava com câncer de mama.
No post de hoje vou contar o que foi que fiz com essa notícia.

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Saí do consultório médico com uma notícia péssima - eu estava com câncer de mama - e uma lista de exames a fazer.
Impossível não pensar em todos os meus planos que haviam escorrido pelo ralo sem que eu tivesse a mínima chance de, ao menos, tentar salvá-los.
O premente, naquele momento que havia tantas coisas a fazer, era avisar o pessoal do trabalho que eu não cumpriria minha promessar de retornar rapidamente. Eu sequer sabia a que horas voltaria...
Disquei o número do escritório em meu celular e, antes que a ligação se completasse, choveram pontos de interrogação sobre meus pensamentos.
Desliguei imediatamente!
Eu daria a pior notícia de toda a minha vida ao pessoal do trabalho em primeiro lugar?
E se fosse com meu marido, eu gostaria de saber depois de outras pessoas?
DEFINITIVAMENTE NÃO! Eu tinha que ser a primeira a saber!
Mas como eu contaria a ele em primeiro lugar?
Ele estava trabalhando num workshop de sua empresa, rodeado de pessoas estranhas, outras nem tanto...
Meu Deus! O que fazer?
Com pesar preciso confessar que "jogo de cintura" não é o meu ponto forte.
Descobri que meu forte é encarar a realidade de frente, nua e crua, feia como ela é, sem rodeios.Então, bem assim, sem rodeios, liguei pro Marido:
- Oi, Esposa! (com um lindo e largo sorriso do outro lado do telefone)
- Oi, Marido! Tudo bem?
- Tudo, e você?
- Bom, eu acabo de sair do médico e acho que, como meu companheiro, você tem o direito de saber em primeiro lugar: estou com câncer de mama!
(silêncio...)
- É?
- É, e agora tenho um monte e exames pra fazer. Depois que eu terminar te ligo pra almoçarmos juntos, ok?
- Tá.
- Beijo.
- Beijo.
Saí correndo pra fazer meus exames, implorando por um encaixe no laboratório. Mais do que nunca eu tinha pressa. Encaixes envolvem filas de espera. E nessas filas, sem livro algum em maos, eu tentei retomar meus pensamentos, que insistiam em funcionar numa rotação muito superior a que eu era capaz de processar. Foi aí que concluí que havia cometido meu primeiro erro (digo primeiro porque cometi muitos outros depois): concedi ao meu Marido, meu grande companheiro, o GRANDE PRIVILÉGIO de receber uma notícia bomba, assim, na lata, como se fosse um soco no estômago...
Fiquei pensando: fiz tudo como se fosse dar uma má notícia a mim mesma. Mas era minha obrigação pensar que meu Marido é emotivo, se preocupa até quando estou com uma febre baixa, em poucas palavras, ele é o meu oposto...
Caramba, que privilégio chinfrim! Privilégio mesmo teria sido a notícia de que ganhei uma viagem com acompanhante à Polinésia Francesa!
Entretanto minha loteria foi ao avesso - EU TINHA CÂNCER!
Ao final dos exames fui almoçar com o Marido. Ganhei um abraço muito forte, e me senti em paz! O clima do almoço era esquisito, muito esquisito. Eu não sabia responder a nenhum questionamento. Só sabia que teria que fazer uma cirurgia, quimioterapia e que perderia os cabelos. Eu mesma era um poço de dúvidas. A parte boa foi que, de mãos dadas com meu Marido, não me sentia só.
Após o almoço fui até o escritório do meu plano de saúde saber como as coisas iriam funcionar na prática.
No final da tarde voltei ao escritório pra fechar meus assuntos pendentes, e recolher meus objetos pessoais - eu não voltaria a trabalhar tão cedo como gostaria, e tampouco sabia quão longa seria a ausência...